Prática funerária
Mumificação: o que os corpos, os papiros e Heródoto realmente nos dizem
Por Equipe editorial Treasury Toolshed · Publicado em · 5 min de leitura
Natrão, vasos canópicos, setenta dias de trabalho ritual e milhões de animais: uma síntese do que se sabe, e do que ainda se discute, sobre a conservação artificial do corpo no Egito antigo.
Da areia ao ofício: como surgiu a mumificação
Nas sepulturas mais antigas do Egito, escavadas na areia seca do deserto, os corpos se preservavam naturalmente. O calor e a ausência de umidade desidratavam a pele antes que ela se decompusesse, e é provável que os egípcios tenham observado e interpretado esse fenômeno como um sinal de que o corpo podia sobreviver à morte. Quando as sepulturas se tornaram mais elaboradas, com paredes de tijolo e câmaras fechadas, os corpos passaram a se decompor, e surgiu a necessidade de intervir.
As primeiras tentativas de preservação artificial, com faixas de linho embebidas em resina, aparecem a partir do período Dinástico Inicial. A técnica de retirar os órgãos internos, no entanto, consolida-se no Antigo Império: um dos exemplos mais antigos é o baú canópico da rainha Hetepheres, mãe de Quéops, que continha vestígios de natrão. Daí em diante, o método foi sendo refinado por mais de dois milênios.
As etapas do método clássico
Nossas principais descrições do processo completo vêm do historiador grego Heródoto (século V a.C.) e de Diodoro Sículo (século I a.C.), confirmadas, em linhas gerais, por papiros rituais egípcios e pelo estudo de múmias. O procedimento mais elaborado seguia estas etapas: retirada do cérebro pelas narinas com ganchos de metal; incisão no flanco esquerdo para remover pulmões, fígado, estômago e intestinos; lavagem da cavidade com vinho de palma e especiarias; e secagem do corpo coberto por natrão, um sal natural encontrado no Wadi Natrun.
A secagem durava cerca de quarenta dias. Depois, o corpo era lavado, untado com óleos e resinas, preenchido com linho ou serragem para recuperar a forma e envolvido em dezenas de camadas de faixas de linho. Entre as camadas eram inseridos amuletos, como o escaravelho do coração, o pilar djed e o olho de Hórus, cada um com uma função protetora determinada. O coração, por ser a sede da consciência, era deixado no corpo para o julgamento.
Setenta dias de ritual
O número setenta aparece com frequência nas fontes e tem um significado simbólico preciso: corresponde, aproximadamente, ao período em que a estrela Sírio permanece invisível no céu antes de reaparecer, evento associado à renovação. O trabalho dos embalsamadores incluía recitações, oferendas e a presença de um sacerdote que usava a máscara de Anúbis, o deus protetor dos embalsamadores. Cada passo técnico tinha, portanto, um correspondente religioso.
O encerramento do processo era o ritual da Abertura da Boca, no qual se tocava a boca, os olhos e outras partes do corpo com instrumentos rituais para restituir ao falecido as faculdades que ele precisaria no além: respirar, comer, falar, ver. Só depois disso o corpo era colocado no sarcófago e conduzido à tumba.
Os vasos canópicos e os quatro filhos de Hórus
Os órgãos retirados não eram descartados. Tratados com natrão e resinas, eram guardados em quatro vasos, cada um colocado sob a proteção de um dos quatro filhos de Hórus: Imsety, de cabeça humana, guardava o fígado; Hapi, de cabeça de babuíno, os pulmões; Duamutef, de cabeça de chacal, o estômago; e Qebehsenuef, de cabeça de falcão, os intestinos. Os deuses, por sua vez, eram associados a deusas protetoras: Ísis, Néftis, Neit e Selkis.
A relação entre os vasos e os deuses mostra como a mumificação era uma obra de integração: cada parte do corpo tinha uma divindade, um feitiço e uma função. Nos períodos finais, passou-se a recolocar os órgãos embalsamados dentro do corpo, e os vasos tornaram-se, em muitos casos, apenas símbolos.
Mumificação para todos?
A imagem de que todos os egípcios eram mumificados é um exagero. O procedimento completo era caro e, durante grande parte da história, reservado à realeza e à elite. Camadas médias recorriam a versões simplificadas, e os mais pobres continuaram a ser sepultados na areia, com poucos objetos. Mesmo assim, ao longo do Novo Império e dos períodos seguintes, a mumificação se difundiu mais amplamente, em paralelo à popularização do Livro dos Mortos e dos amuletos funerários.
Havia também uma hierarquia de serviços. Heródoto descreve três categorias de preço, do tratamento luxuoso ao mais econômico, sem remoção dos órgãos, e esse tipo de diferenciação é confirmado pelo estudo de múmias que apresentam técnicas muito variadas.
Animais mumificados
Uma das descobertas mais impressionantes da arqueologia egípcia é a escala da mumificação de animais. Gatos, íbis, falcões, crocodilos, cães e touros foram embalsamados e depositados em necrópoles dedicadas. Havia animais pessoais, mantidos como companhia, mas a grande maioria eram ofertas votivas: um peregrino comprava uma múmia de íbis, por exemplo, para oferecê-la a Tot, esperando que o deus levasse sua prece adiante.
Na Época Baixa e no período ptolomaico, esses cultos se multiplicaram, e catacumbas como as de Saqqara e de Tuna el-Gebel guardam milhões de animais. O fenômeno mostra que a mumificação havia deixado de ser um privilégio humano para se tornar uma linguagem religiosa de devoção.
Para aprofundar neste site
- Divindades: Anúbis, Osíris, Ísis, Néftis, Tot
- Textos: Livro dos Mortos
- Períodos: Antigo Império, Novo Império, Época Baixa
- Acontecimentos: Popularização de amuletos e práticas ligadas ao Livro dos Mortos, Primeiras versões do Livro dos Mortos, Necrópole real de Abidos e desenvolvimento do culto funerário
Fontes e leituras de referência
- The British Museum — Museu
- The Metropolitan Museum of Art — Museu
- Museu Egípcio do Cairo — Museu
- Erik Hornung — Egiptólogo
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