Novo Império · Registro de texto religioso
Primeiras versões do Livro dos Mortos
c. 1500 a.C.
Local: Tebas
Divindades envolvidas: Osíris, Anúbis, Tot, Maat
Textos relacionados: Livro dos Mortos
Contexto
A partir de fórmulas herdadas dos Textos dos Sarcófagos, começam a circular em papiro as primeiras versões do "Livro de Sair à Luz do Dia", conhecido posteriormente como Livro dos Mortos. Diferente dos suportes anteriores — paredes de pirâmide, interior de caixões —, o papiro permitia produção mais rápida, cópia por diferentes escribas e maior padronização visual entre exemplares, incluindo ilustrações coloridas detalhadas.
Oficinas especializadas em torno de grandes necrópoles, como a de Tebas, passaram a produzir esses papiros em diferentes níveis de qualidade e extensão, atendendo a clientes com orçamentos muito distintos — da cópia luxuosa e completa, encomendada por um alto funcionário, a versões reduzidas de poucos capítulos, mais acessíveis a famílias de recursos modestos.
Essas primeiras versões ainda apresentavam vocabulário e organização textual próximos aos dos Textos dos Sarcófagos que as antecederam, evidenciando um processo de transição gradual, e não uma ruptura abrupta na tradição funerária egípcia — apenas em fases posteriores do Novo Império o corpus assumiria a forma mais padronizada pela qual é hoje mais conhecido.
Importância histórico-religiosa
Torna-se o texto funerário mais amplamente copiado e adaptado da história egípcia, incluído em sepultamentos de diferentes níveis sociais por mais de mil anos, e a fonte mais influente para a compreensão moderna da escatologia egípcia.
A cena da pesagem do coração, popularizada por esse corpus, se tornaria a imagem mais reconhecida internacionalmente de toda a religião egípcia, presente até hoje em praticamente qualquer material introdutório sobre a civilização do Egito Antigo.
A riqueza narrativa e visual do texto também o tornaria uma das principais portas de entrada, para o público em geral, ao estudo da religião egípcia como um todo, servindo de introdução acessível a conceitos mais amplos como Ká, Ba, Duat e o próprio conceito de Maat, discutidos em profundidade em outras partes deste site.
Legado
Nenhum outro texto egípcio antigo moldaria tanto a percepção popular moderna sobre a religião egípcia quanto o Livro dos Mortos, cuja iconografia — sobretudo a cena da pesagem do coração — permanece, até os dias de hoje, uma das imagens mais reproduzidas em museus, livros e materiais educativos sobre o Egito Antigo em todo o mundo. Traduções acadêmicas do texto continuam sendo publicadas e revisadas até hoje, e novas cópias de papiro do corpus seguem sendo identificadas em escavações e coleções museológicas, o que faz do Livro dos Mortos um dos raros textos da Antiguidade cujo corpus de estudo ainda está, em certo sentido, em expansão contínua, mais de três mil anos depois de suas primeiras versões terem começado a circular.
Fontes consultadas
- Raymond O. Faulkner — Tradução acadêmica de referência
- Miriam Lichtheim — Tradução acadêmica de referência
- The British Museum — Museu