c. 1550 – 1070 a.C. · XVIII à XX dinastia
Novo Império
O período de maior riqueza documental da religião egípcia: apogeu de Amon-Rá, popularização do Livro dos Mortos, a ousada reforma monoteísta de Aquenáton em torno do disco solar Áton — e a rápida restauração dos cultos tradicionais que se seguiu.
Contexto religioso
É o período em que a religião egípcia deixa o maior volume de registros: o Livro dos Mortos se populariza em papiros funerários de diferentes camadas sociais, os grandes templos de Karnak e Luxor recebem sucessivas ampliações monumentais, e o culto a Amon-Rá atinge o auge de seu prestígio como religião de estado, sustentado por um clero cada vez mais rico e poderoso.
No meio desse apogeu, o reinado de Aquenáton interrompe abruptamente a ordem religiosa tradicional, concentrando o culto oficial no disco solar Áton e fundando uma nova capital em Amarna. É o episódio de reforma religiosa mais radical e mais estudado de toda a história egípcia — e também um dos mais efêmeros: após sua morte, seus sucessores imediatos, Tutancâmon e Horemheb, restauram deliberadamente os templos e cultos anteriores, devolvendo a Amon seu lugar central antes do fim do período.
Além desses dois grandes movimentos — apogeu de Amon-Rá e reforma amarniana —, o Novo Império também produz os chamados "livros do além", como o Livro do Amduat, reservados inicialmente aos túmulos reais do Vale dos Reis, que descrevem em detalhe a jornada noturna do sol pelo mundo inferior. Essa produção textual intensa reflete tanto a riqueza material do período — sustentada por campanhas militares bem-sucedidas na Núbia e no Levante, que traziam tributo e prestígio aos templos — quanto uma elaboração teológica cada vez mais sofisticada sobre o destino da alma.
É também neste período que a figura do escriba funerário e do sacerdote especializado em rituais de mumificação e sepultamento ganha contornos profissionais mais nítidos, com oficinas dedicadas à produção de papiros funerários, amuletos e objetos rituais em torno das grandes necrópoles, sobretudo em Tebas. A religião egípcia do Novo Império não era, portanto, apenas assunto de reis e sumos sacerdotes: já envolvia uma economia religiosa considerável, com artesãos, escribas e comerciantes especializados em atender às necessidades espirituais de diferentes camadas da população.
Principais templos e sítios
Karnak e Luxor, em Tebas, recebem as maiores ampliações de toda a sua história neste período, incluindo a grande sala hipóstila de Karnak e a avenida de esfinges que ligava os dois complexos. O Vale dos Reis, na margem oeste tebana, torna-se o principal local de sepultamento da realeza, substituindo definitivamente o modelo de pirâmide por hipogeus escavados em rocha. Amarna, fundada e abandonada em poucas décadas durante o reinado de Aquenáton, é hoje um dos sítios arqueológicos mais estudados do período, justamente por ter sido ocupada por tempo tão curto — o que preservou um retrato relativamente "congelado" da vida cotidiana e religiosa da época.
Abu Simbel, no extremo sul, e Dendera, no Alto Egito, completam o quadro dos grandes empreendimentos religiosos do Novo Império, refletindo tanto a riqueza material do período quanto sua ambição de projetar poder religioso até as fronteiras mais distantes do território egípcio.
Legado para os períodos seguintes
A fórmula funerária consolidada no Novo Império — Livro dos Mortos, amuletos protetores, julgamento perante Osíris — permaneceria, com variações, como o núcleo da religiosidade funerária egípcia até os últimos séculos de prática pagã, no período romano. Já o episódio amarniano, embora revertido rapidamente, deixaria uma marca duradoura na forma como a própria tradição egípcia posterior lidava com a memória de reinados considerados heréticos.
O enfraquecimento gradual do poder real ao fim do Novo Império, associado ao crescimento paralelo da riqueza e influência do clero de Amon em Tebas, prepara diretamente a fragmentação política do Terceiro Período Intermediário seguinte — um lembrete de que a mesma instituição religiosa que sustentava a ideologia do estado egípcio também podia, no longo prazo, competir com ela por poder e recursos.