Novo Império · Culto funerário
Popularização de amuletos e práticas ligadas ao Livro dos Mortos
c. 1200 a.C.
Divindades envolvidas: Osíris, Anúbis, Tot
Textos relacionados: Livro dos Mortos
Contexto
Amuletos, escaravelhos do coração e cópias — completas ou parciais — do Livro dos Mortos se tornam prática funerária amplamente difundida entre diferentes camadas da população com recursos para sepultamentos elaborados. O escaravelho do coração, colocado sobre o peito da múmia, trazia inscrito um encantamento específico pedindo ao próprio coração que não testemunhasse contra o falecido durante a pesagem diante de Osíris — uma preocupação prática e ao mesmo tempo profundamente religiosa.
Essa padronização de objetos funerários — fórmulas, amuletos, posições específicas sobre o corpo mumificado — indica a consolidação de um verdadeiro "pacote" ritual funerário reconhecido e replicado em oficinas espalhadas por diferentes regiões do Egito, com variações regionais discretas mas um núcleo comum bem estabelecido.
Análises modernas de múmias e ajuares funerários deste período mostram que a qualidade e a quantidade de amuletos incluídos variavam consideravelmente conforme os recursos da família do falecido, mas a presença de ao menos um escaravelho do coração se tornou, nesta fase, quase um requisito mínimo esperado para qualquer sepultamento que aspirasse à proteção ritual básica preconizada pelos textos funerários.
Importância histórico-religiosa
Evidencia como práticas funerárias antes restritas à elite se difundiram ao longo do Novo Império, ainda que de forma desigual, tornando-se parte do imaginário funerário egípcio de forma mais ampla do que em qualquer período anterior.
A padronização desse "pacote" funerário também facilitou sua produção em maior escala por oficinas especializadas, um dos fatores que tornou possível sua difusão a um público mais amplo do que os corpora textuais anteriores, restritos a suportes mais caros e trabalhosos de produzir.
Essa padronização também reflete uma mudança na própria organização econômica da religião funerária egípcia, com oficinas especializadas assumindo papel cada vez mais central na produção em série de objetos rituais, um modelo de produção que se manteria essencialmente estável pelo restante da história funerária egípcia registrada.
Legado
O modelo de sepultamento consolidado neste período — combinação de amuletos protetores, escaravelho do coração e cópia (ao menos parcial) do Livro dos Mortos — permaneceria, com variações, o núcleo da prática funerária egípcia até os últimos séculos de religião tradicional, no período romano, um dos "pacotes" rituais mais duradouros da história egípcia. A quantidade extraordinária de amuletos, escaravelhos e fragmentos de papiro funerário hoje preservados em coleções museológicas ao redor do mundo — resultado direto dessa produção em larga escala iniciada no Novo Império — é o que permite à egiptologia moderna reconstruir, com riqueza incomum de detalhes, as práticas funerárias cotidianas de egípcios comuns, e não apenas da realeza, ao longo de toda a segunda metade da história egípcia antiga.
Fontes consultadas
- The British Museum — Museu
- The Metropolitan Museum of Art — Museu