Método e fontes
Como funciona a cronologia egípcia — e por que as datas mudam
Por Equipe editorial Treasury Toolshed · Publicado em · 5 min de leitura
Listas de reis, anos de reinado, a estrela Sírio e o radiocarbono: entenda de onde vêm as datas do Egito antigo e por que quase todas aparecem com um “c.” na frente.
Anos de reinado, não calendário contínuo
Quando um escriba egípcio datava um documento, escrevia algo como “ano 12 do rei fulano”, “terceiro mês da estação da inundação, dia 5”. Não existia uma contagem contínua de anos, como a era cristã ou a era de Roma. Cada novo rei reiniciava o contador. Para estabelecer uma cronologia absoluta, os historiadores precisam, então, somar anos de reinado, reinado após reinado, até um ponto cuja data seja conhecida por outros meios.
O problema é que muitos reinados são mal documentados, algumas sucessões se sobrepõem por corregências (quando pai e filho reinam juntos) e há períodos de fragmentação política em que dinastias rivais governavam regiões diferentes ao mesmo tempo.
As listas de reis
Os egípcios mantinham listas de reis, e algumas delas sobreviveram. A Lista de Reis de Abidos, gravada no templo de Seti I, enumera 76 predecessores do faraó e foi feita com fins rituais, omitindo reis considerados ilegítimos, como Hatshepsut e os governantes de Amarna. O Cânone Real de Turim, um papiro do período ramessida, é mais completo: registra os reis com os anos, meses e dias de reinado, e chega a incluir reinados mitológicos, mas está muito fragmentado. A Pedra de Palermo, uma lousa de basalto do Antigo Império, registra eventos anuais dos primeiros reis.
No século III a.C., o sacerdote Maneton, de Sebenito, escreveu em grego uma história do Egito, hoje perdida e conhecida apenas por resumos de autores posteriores. Sua divisão em 30 dinastias, que se tornaria padrão, ainda estrutura a egiptologia, embora sua exatidão seja tão discutida quanto sua utilidade.
O céu como relógio
O calendário civil egípcio tinha 365 dias, sem anos bissextos, e por isso se deslocava em relação ao ano solar: a cada quatro anos, perdia-se um dia. A estrela Sírio, cujo reaparecimento no horizonte anunciava a cheia do Nilo, servia de referência natural. Se um texto registra a data do reaparecimento em determinado ano de reinado, pode-se calcular, por astronomia, o intervalo de anos em que isso poderia ter ocorrido.
Um papiro de Lahun, que registra o reaparecimento de Sírio no sétimo ano de Sesóstris III, é um exemplo famoso. O problema é que o cálculo depende do local de observação, e as hipóteses variam entre Mênfis, Tebas ou Elefantina, o que leva às chamadas cronologias “alta”, “média” e “baixa” para o Médio Império e o Novo Império, com diferenças de alguns anos ou décadas.
O radiocarbono entra em cena
A datação por radiocarbono de amostras de vida curta (como sementes, tecidos e cestos) associadas a reinados conhecidos permitiu testar a cronologia histórica. Um estudo de grande repercussão publicado em 2010 por uma equipe liderada por Christopher Bronk Ramsey analisou dezenas de amostras de diferentes períodos e concluiu que, de modo geral, a cronologia convencional do Reino Antigo ao Novo Reino é compatível com as datas radiométricas, com algumas diferenças de alguns anos ou décadas.
Isso não elimina a incerteza, mas a reduz. Em períodos mais recentes, ela é pequena. Em períodos mais antigos, como o Pré-Dinástico e o Dinástico Inicial, as margens de erro são maiores, e as datas iniciais da Primeira Dinastia variam entre estudiosos.
Pontos fixos
Algumas datas são consideradas seguras por serem confirmadas por fontes externas ao Egito. A invasão assíria e o início da XXVI dinastia sob Psamético I, em 664 a.C., são conectados com a cronologia mesopotâmica. A conquista persa por Cambises, em 525 a.C., a chegada de Alexandre, em 332 a.C., e a morte de Cleópatra VII, em 30 a.C., são conhecidas por fontes gregas e romanas com datas precisas.
Para o período anterior a 664 a.C., a incerteza aumenta gradualmente. Essas âncoras explicam por que o Período Ptolomaico aparece neste site com datas exatas, e o Antigo Império, com o prefixo “c.”.
O que isto significa para o leitor
Um leitor atento notará que livros e sites diferentes apresentam datas ligeiramente distintas para o mesmo faraó. Isso não é descuido, mas reflexo de uma disciplina em que a precisão depende de fontes fragmentadas. Quando escrevemos “c. 2686 a.C.”, estamos usando uma convenção amplamente adotada, mas outras publicações trazem 2649 a.C. ou 2700 a.C.
Por isso, as páginas deste site sinalizam quando há controvérsia relevante e explicam o motivo. E, no caso dos mitos, o problema é ainda mais fundamental: eles não têm data de ocorrência, como explicamos em nossa política editorial. Datamos documentos, templos e textos, não o momento em que um deus teria feito algo.
Para aprofundar neste site
- Textos: Textos das Pirâmides
- Períodos: Período Dinástico Inicial, Antigo Império, Época Baixa, Período Ptolomaico
- Acontecimentos: Paleta de Narmer e a iconografia religiosa da realeza, Dinastia saíta e revivalismo de formas religiosas do Antigo Império, Alexandre Magno consulta o oráculo de Amon em Siwa, Cleópatra VII e sua associação ao culto de Ísis
Fontes e leituras de referência
- Griffith Institute — Universidade de Oxford — Instituição acadêmica
- Petrie Museum of Egyptian Archaeology (UCL) — Instituição acadêmica
- The British Museum — Museu
- R. B. Parkinson — Egiptólogo
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