Médio Império (a partir de c. 1950 a.C.)
Textos dos Sarcófagos
Coleção de fórmulas funerárias inscritas no interior de caixões de madeira, derivadas em parte dos Textos das Pirâmides, mas com um público mais amplo: membros da elite não-real, como altos funcionários e sacerdotes. Representam uma ampliação significativa do acesso ao conhecimento sobre a vida após a morte, antes restrito quase exclusivamente aos reis.
Além de reaproveitar fórmulas mais antigas, os Textos dos Sarcófagos introduzem material inteiramente novo, incluindo os chamados “Livros dos Dois Caminhos” — mapas rituais ilustrados do mundo inferior, considerados por muitos egiptólogos os precursores diretos dos futuros “livros do além” do Novo Império, como o Livro do Amduat.
Diferente do suporte fixo de uma câmara funerária real, o interior de um caixão de madeira permitia maior circulação e cópia dos textos entre diferentes oficinas funerárias regionais, o que ajuda a explicar tanto a rápida difusão do corpus pelo Egito quanto a considerável variação entre exemplares encontrados em diferentes sítios arqueológicos.
Ao contrário da inscrição em pedra dos Textos das Pirâmides, o texto era escrito diretamente sobre a superfície de madeira do caixão, às vezes acompanhado de listas de oferendas, mapas do mundo inferior e até uma espécie de "índice" das fórmulas incluídas — uma organização mais elaborada que já antecipa, em certa medida, a estrutura de capítulos que o Livro dos Mortos adotaria séculos mais tarde.
Estrutura e conteúdo
O corpus reúne mais de mil fórmulas distintas, organizadas de forma bem menos padronizada que os Textos das Pirâmides: cada caixão podia conter uma seleção própria, refletindo o orçamento, a região e as preferências pessoais de quem o encomendava. Os "Livros dos Dois Caminhos" se destacam como inovação central, combinando texto e ilustração em mapas rituais que orientavam o falecido por rotas específicas do mundo inferior, indicando obstáculos e a forma correta de superá-los.
Diferentes oficinas regionais, sobretudo em Assiut e El-Bersheh, desenvolveram repertórios próprios de fórmulas preferidas, o que permite hoje à egiptologia identificar, com razoável precisão, a origem provável de um caixão específico apenas pela análise do conjunto de textos nele inscritos, mesmo quando outras informações arqueológicas de proveniência estão ausentes.
Descoberta e estudo
Grande parte do corpus foi recuperada de escavações de necrópoles do Médio Império, sobretudo em Assiut, El-Bersheh e Mêir, ao longo do século XX. Sua edição acadêmica de referência, organizada por Adriaan de Buck ao longo de várias décadas, reúne e compara sistematicamente as diferentes variantes conhecidas de cada fórmula entre os diversos caixões estudados.
Traduções para o inglês baseadas nessa edição, como as produzidas por Raymond O. Faulkner, tornaram o corpus acessível a um público acadêmico mais amplo a partir da segunda metade do século XX, consolidando os Textos dos Sarcófagos como objeto de estudo comparado regular em cursos universitários de egiptologia ao redor do mundo, ao lado de outros grandes corpora funerários egípcios.
Legado
Muitas fórmulas dos Textos dos Sarcófagos viriam a ser reaproveitadas, séculos depois, na composição do Livro dos Mortos, evidenciando a continuidade de uma mesma tradição textual em constante reelaboração. O próprio modelo de "democratização gradual" do acesso à vida após a morte, iniciado aqui, se repetiria de forma ainda mais ampla no Novo Império.
O estudo comparado entre diferentes exemplares dos Textos dos Sarcófagos também permite à egiptologia acompanhar, com razoável precisão, como fórmulas específicas eram copiadas, adaptadas ou abandonadas ao longo de poucas gerações — um raro retrato de "edição viva" de um corpus religioso em transformação contínua, e não de um texto fixo transmitido sem alterações.