c. 2055 – 1650 a.C. · XI à XIII dinastia
Médio Império
Tebas assume o centro do poder religioso e político, o deus local Amon inicia sua trajetória rumo à divindade suprema do Egito, e os Textos dos Sarcófagos ampliam — para além da realeza — o acesso à promessa de vida após a morte.
Contexto religioso
Com a reunificação do país sob a XI dinastia, depois de um período de fragmentação, Tebas se torna centro político e religioso de primeira grandeza, e sua divindade local, Amon, começa a trajetória que o levaria, fundido a Rá, à condição de principal deus do estado egípcio. É também neste período que tem início a construção do que se tornaria, ao longo de mais de mil e quinhentos anos, o maior complexo de templos do Egito Antigo: Karnak.
No plano funerário, os Textos dos Sarcófagos — fórmulas derivadas em parte dos Textos das Pirâmides — passam a ser inscritos em caixões de madeira de membros da elite não-real, ampliando de forma significativa o acesso a um conhecimento antes restrito aos reis. Esse movimento de ampliação, gradual e desigual, prepara o terreno para a democratização ainda maior que o Livro dos Mortos representaria no Novo Império.
O Médio Império também é marcado por uma renovada centralização administrativa após o chamado Primeiro Período Intermediário, época de fragmentação política que, embora não integre a lista dos nove períodos detalhados neste site, deixou marcas religiosas importantes: a literatura pessimista desse intervalo, refletindo sobre crise e ordem social, viria a influenciar a forma como os reis do Médio Império justificavam religiosamente sua autoridade restaurada, insistindo fortemente no papel do rei como garantidor de Maat contra o caos.
Cultos regionais como o de Sobek, no Fayum, e a devoção crescente a Osíris em Abidos — já destino de peregrinação organizada — mostram uma religião cada vez mais diversificada geograficamente, mesmo sob um governo centralizado. Estelas de particulares deixadas próximas a templos importantes, prática que se intensifica neste período, indicam também uma religiosidade pessoal mais visível na documentação, para além dos grandes rituais de estado patrocinados pela realeza.
Principais templos e sítios
Karnak, em Tebas, tem aqui suas primeiras estruturas dedicadas a Amon, embrião do que se tornaria, séculos depois, o maior complexo religioso do Egito Antigo. Abidos permanece como grande centro de peregrinação ligado a Osíris, recebendo estelas votivas de particulares de diferentes regiões do país. No Fayum, região beneficiada por importantes projetos reais de irrigação, Crocodilópolis se firma como centro do culto a Sobek, com templos dedicados à divindade crocodilo diretamente ligados à exploração agrícola da área recém-drenada.
Esses três polos — Tebas em ascensão, Abidos consolidado e o Fayum em expansão — ilustram bem a geografia religiosa mais equilibrada do Médio Império, em contraste com a centralidade quase exclusiva de Mênfis e Heliópolis no período anterior.
Legado para os períodos seguintes
A ascensão inicial de Amon como divindade tebana e a democratização parcial do acesso à vida após a morte, iniciada com os Textos dos Sarcófagos, são os dois desenvolvimentos deste período com maior impacto de longo prazo: o primeiro culminaria no culto de estado a Amon-Rá do Novo Império; o segundo, na composição do Livro dos Mortos poucos séculos depois.
O fim do Médio Império, marcado pela fragmentação do Segundo Período Intermediário e pela presença de dinastias estrangeiras no Delta, interromperia temporariamente essa trajetória ascendente de Tebas — mas apenas temporariamente: seria justamente a partir de Tebas, mais uma vez, que a reunificação do Novo Império se organizaria, consolidando de vez o prestígio religioso da cidade.